Quando trabalhar vira identidade
Feliz 2026, leitores.
Estive meio off neste final de ano — principalmente aqui na newsletter, mas não só aqui. Também me afastei da minha rede social profissional. Acredito que essa foi, pelo menos para mim, uma das melhores formas de cuidar da saúde mental.
As redes sociais hoje são um mar de frustração. Costumo contar aos meus pacientes como o algoritmo do Instagram foi, em grande parte, desenhado para nos manter insatisfeitos: promover comparações constantes e gerar frustração com quem somos, com a nossa vida e com a forma como a enxergamos.
Mas não foi apenas isso que me afastou das atividades online. É óbvio que esse ponto é importante — e todo mundo já sabe disso —, mas ainda assim caímos facilmente no conformismo ou no famoso FOMO (fear of missing out): a sensação de que, para pertencermos ao mundo ou validarmos nossa existência, precisamos estar online, postando algo sobre nossas vidas.
2025 foi um ano pesado. Muitas coisas aconteceram na minha vida e, quando chegaram as férias de final de ano, eu quis dar um basta. Resolvi me esquivar de tudo que me causava estresse ou que estivesse diretamente ligado ao meu trabalho — que, para quem ainda não sabe, é a psicologia.
Não tenho raiva da psicologia, longe disso. Mas tenho para mim que as redes sociais, além de — com muitas aspas — “lazer”, para nós, profissionais autônomos, são também trabalho, marketing e autopromoção. E existe algo perverso nisso: pouco a pouco, aquilo que fazemos passa a definir quem somos.
Marx já apontava esse movimento ao falar da alienação do trabalho: quando o trabalho deixa de ser expressão da vida, a própria vida passa a servir ao trabalho. O sujeito desaparece, e sobra apenas o produto. Em outras palavras, deixamos de ser indivíduos e passamos a nos perceber — e a ser percebidos — como objetos.
O que mais me frustrava — e reconheço que parte disso é culpa minha — era entrar no meu Instagram profissional e ver colegas, em pleno período de férias, produzindo conteúdo normalmente. E aí me vinham três pensamentos quase automáticos:
- “Meu Deus, essa pessoa não tira férias?”
- “Será que eu deveria estar fazendo a mesma coisa?” — mas são minhas férias.
- O quanto isso soa contraditório: falar sobre descanso e autocuidado enquanto se trabalha o tempo todo.
É claro que profissionais, na vida pessoal, não precisam — e não devem — ser modelos de perfeição. Mas ver alguém alertar sobre os “riscos das redes sociais” enquanto passa as férias editando, criando e postando conteúdo — ou seja, trabalhando — me soa, no mínimo, incoerente.
Além disso, acredito que todos nós precisamos de momentos mais reais. Sim, é clichê, eu sei. Mas estar próximo de pessoas que nos fazem bem é essencial. Neste final de ano, fiquei longe das redes e me conectei com meus amigos. Quase todos os dias eles vinham à minha casa: conversávamos, jogávamos nossos jogos nerds e simplesmente curtíamos a presença uns dos outros.
Passei tempo perto de pessoas para as quais não preciso mandar uma DM para existir. Estive próximo da minha família e também tive momentos de estar comigo mesmo — e esse ponto, para mim, é central.
Adorei meu final de ano porque tive tempo de me reconectar comigo. Claro que vou voltar a produzir conteúdo no momento certo — quando for hora de trabalhar. Mas meu momento de lazer é para ser lazer. Se for para ouvir um podcast sobre um tema completamente fora da minha área de atuação, que seja. O importante é estar presente comigo.
Nos grupos de estudo de práticas baseadas em evidências em psicologia que conduzo, percebo um movimento quase neoliberal de venda de uma estética profissional desconectada da realidade da maioria dos brasileiros, muitas vezes orientada ao famoso high ticket. Entendo que parte disso nasce de uma tentativa da própria psicologia de buscar validação no olhar da elite ou da classe média, tentando dar valor a uma profissão historicamente sucateada — muitas vezes pela própria psicologia.
Mas sempre digo aos participantes do grupo: psicologia é trabalho, não lifestyle. Viva sua vida. Trabalhe quando for hora de trabalhar.
Estamos nos tornando objetos daquilo que fazemos. E a pergunta que fica é simples e incômoda:
como denunciar uma sociedade adoecida pelo burnout se seguimos tratando descanso como culpa e produtividade como identidade?