Não é por saúde nem estética, é por pertencimento

Quando o corpo vira passaporte social e a subjetividade começa a desaparecer

Ao longo dos meus dias, tenho reparado que as pessoas estão cada vez mais dispostas a sacrificar partes de si mesmas para tentar alcançar padrões de beleza claramente inalcançáveis. Seja por meio de procedimentos estéticos no rosto, implantes corporais ou pelo uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento — vocês sabem exatamente de quais estou falando.

Mas, refletindo com mais calma, esse movimento não é exatamente novo. A tentativa obsessiva de ser magro, esbelto e “adequado” a um padrão de beleza sempre existiu. A própria história mostra isso de forma trágica. Karen Carpenter, uma cantora excepcional e extremamente famosa nos anos 1970, morreu em decorrência de complicações da anorexia nervosa. Transtornos alimentares sempre estiveram presentes e sempre foram um problema grave de saúde pública.

O que parece diferente hoje não é apenas a busca pelo corpo ideal, mas o resultado dessa busca. Atualmente, as pessoas estão se tornando cada vez mais parecidas entre si: os mesmos procedimentos faciais, as mesmas próteses, os mesmos corpos excessivamente magros — um nível de homogeneização que chega a ser preocupante.

E foi refletindo sobre isso que me veio uma pequena epifania:
não é por saúde, não é exatamente para parecer mais bonito(a). É por pertencimento.

Mais especificamente, pertencimento a uma classe social específica.

Historicamente, a classe média sempre tentou mimetizar os comportamentos, os valores e a estética das elites. Isso não acontece apenas por vaidade, mas porque aparência, hábitos e corpo funcionam como marcadores sociais de status. Pierre Bourdieu já descrevia como o gosto, o corpo e o estilo de vida operam como capital simbólico — sinais visíveis de posição social.

Hoje, o que representa riqueza não é apenas dinheiro. É tempo.

Tempo para ir à academia.
Tempo para fazer procedimentos estéticos.
Tempo para cuidar do corpo, da alimentação e da imagem.
Tempo, inclusive, para ficar em casa.

Não é por acaso que grandes marcas de alta costura passaram a investir pesado em roupas fitness e athleisure. O corpo treinado, magro e funcional virou um símbolo de quem “venceu na vida”. Essas marcas não vendem apenas roupas de academia — vendem a ideia de que você tem liberdade suficiente para treinar quando quiser, como quiser, porque seu tempo não está sendo consumido pela sobrevivência.

Diante disso, a classe média — ou o que eu chamaria de um cosplay de riqueza — tenta reproduzir esse padrão estético. Não necessariamente porque isso traga saúde, bem-estar ou qualidade de vida, mas porque aproxima simbolicamente da elite.

É aqui que a magreza extrema entra em cena.

Atualmente, medicamentos para emagrecimento são caros e, embora existam evidências de eficácia quando bem indicados clinicamente, também há dados mostrando riscos, efeitos colaterais e prejuízos potenciais quando usados de forma indiscriminada, estética ou sem acompanhamento adequado. Ainda assim, isso parece secundário.

No fundo, pouco importa o risco.
O que importa é parecer com a blogueira magra, produtiva e “bem-sucedida” que representa a elite que se admira.

Mas o fenômeno não para no corpo.

Essa padronização estética vem acompanhada de uma padronização subjetiva. As pessoas não estão apenas ficando parecidas fisicamente; estão, pouco a pouco, se tornando parecidas no jeito de pensar, de falar e até de interpretar o mundo. Os mesmos discursos sobre sucesso, produtividade, autocuidado, meritocracia e “mentalidade vencedora” se repetem quase como um script.

O corpo vira uniforme.
O pensamento vira manual.
A individualidade vai sendo substituída por um pacote pronto de identidade.

Não é raro observar uma perda progressiva de traços de personalidade, de ambivalência, de pensamento crítico e até de contradições — justamente aquilo que torna alguém singular. Em troca, surge uma subjetividade higienizada, performática e altamente adaptada ao que é socialmente valorizado. O pertencimento passa a exigir não só um corpo específico, mas também uma forma específica de existir.

Curiosamente, durante a pandemia de COVID-19, parte significativa da classe média questionava a segurança e a qualidade das vacinas, desconfiava da ciência e levantava dúvidas sobre efeitos colaterais. Mas, quando o assunto é emagrecimento e pertencimento social, se a “canetinha” viesse do esgoto, muitos tomariam sem pensar duas vezes.

Porque, no fim das contas, não se trata de saúde.
Não se trata de estética.
Trata-se de não ficar de fora.

Pertencer sempre foi uma das forças psicológicas mais poderosas que existem. E talvez o que estejamos chamando de autocuidado, disciplina ou lifestyle saudável seja, muitas vezes, apenas mais uma forma socialmente aceitável de dizer:
“eu quero fazer parte — mesmo que isso custe meu corpo, meu pensamento e um pouco de quem eu sou.”

— Gustavo Henrique Ferreira
Psicólogo Clínico
Psicologia Baseada em Evidências | Neurociência
Escrevo sobre saúde mental, comportamento e cultura

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Gustavo Henrique

Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

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Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

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Gustavo Henrique | Psicólogo Clínico CRP 08/32842

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