Às vezes, a culpa não é sua

Quando o sofrimento individual é tratado como falha pessoal

Existe uma ideia que circula com força hoje:
se você está mal, é porque não está se cuidando direito.

Não meditou.
Não organizou a rotina.
Não fez terapia como deveria.
Não foi resiliente o suficiente.

Essa ideia parece moderna, mas é profundamente violenta.

Porque ela ignora uma pergunta básica:
em que condições essa pessoa está vivendo?

Cuidar da saúde mental exige recursos.
Tempo, dinheiro, previsibilidade, descanso, segurança.
E isso não está igualmente disponível para todo mundo.

Quando alguém trabalha demais, ganha de menos, dorme mal, vive com medo de faltar o básico — não estamos falando de “falta de autocuidado”. Estamos falando de sobrevivência.

Como não estar ansioso quando a vida é instável?
Como não estar deprimido quando o futuro é incerto?
Como não estar exausto quando tudo exige desempenho?

Nem todo sofrimento é interno.
Nem toda dor é uma distorção cognitiva.
Nem toda exaustão é um transtorno.

Às vezes, é só o corpo e a mente reagindo a um contexto que esgota.

O problema é que o capitalismo é muito eficiente em fazer o seguinte movimento:
primeiro ele te espreme,
depois te culpa por não funcionar bem espremido.

Rouba tempo.
Rouba descanso.
Rouba segurança.
E, no final, diz que o problema é a sua “gestão emocional”.

Quando a psicologia ignora isso, ela deixa de cuidar.
Ela vira mais uma cobrança:
melhore, dê conta, se adapte.

Isso não é neutralidade científica.
É conforto ideológico.

Dizer que “a culpa não é sua” não é negar responsabilidade pessoal.
É recusar a mentira de que tudo depende apenas do indivíduo.

Você não está quebrado.
Você pode estar cansado.
Cansado demais para se cuidar em um sistema que não cuida.

E reconhecer isso não é desistir da saúde mental.
É o primeiro passo para pensá-la com mais honestidade, dignidade e ética.

Este artigo foi escrito por:

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Gustavo Henrique

Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

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Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

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Gustavo Henrique | Psicólogo Clínico CRP 08/32842

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