Por que o seu laudo não é um alvará de soltura para comportamentos nocivos.
Seja bem-vindo a mais uma edição. Hoje, precisamos falar sobre o “crachá de transtorno”.
Sabe aquela cena clássica? Alguém explode, age de forma impulsiva, magoa metade do grupo de WhatsApp e, quando o clima pesa, solta a frase de ouro: “Gente, desculpa, é que meu Borderline atacou hoje, vocês sabem como é…” ou “Nossa, meu TDAH me fez esquecer o aniversário da minha mãe pelo quinto ano seguido, é meu cérebro, sabe?”.
Pois é, eu sei. E como psicólogo que estuda neurociência, eu sei até quais áreas do seu cérebro estão disparando nesse momento. Mas aqui vai a “red pill” da semana: Explicar um comportamento é função da ciência; justificá-lo é uma escolha sua.
O alívio (perigoso) do nome
Receber um diagnóstico é, muitas vezes, o melhor dia da vida de um paciente. É o momento em que a confusão mental ganha um nome, um CID e um protocolo. O “eu sou louco” vira “eu tenho um transtorno”. Isso é maravilhoso e tira um peso existencial enorme das costas.
O problema começa quando o diagnóstico vira um escudo moral. Quando o paciente para de se ver como um agente ativo e passa a se ver como um passageiro de um trem desgovernado chamado “Neurotransmissores”.
A Neurociência te explica, mas não te perdoa
A neurociência nos mostra que, sim, quem tem um transtorno de personalidade ou de neurodesenvolvimento tem dificuldades biológicas reais na regulação de impulsos, na atenção ou na modulação do afeto. O seu cérebro, de fato, entrega um “default” mais difícil que a média.
Mas, nas Práticas Baseadas em Evidências, o diagnóstico é o mapa, não o destino. Se você sabe que seu mapa tem um buraco na rua X, a sua responsabilidade ética é aprender a frear antes ou mudar a rota. Usar o buraco como desculpa para bater o carro todo dia no mesmo lugar não é sintoma, é falta de compromisso com o processo.
“Ah, mas é difícil…”
Com certeza! É terrivelmente difícil. Ter um transtorno significa que você terá que fazer um esforço consciente de $200\%$ para entregar o que alguém funcional entrega com $50\%$. É injusto? É. Mas é a sua realidade biológica.
A pergunta de um milhão de reais que eu deixo para você hoje é: O que você está fazendo com o seu laudo nas mãos?
- Usando como licença poética para ser caótico e esperar que o mundo se adapte?
- Ou usando como manual de instruções para saber exatamente onde você precisa de mais treino, mais medicação ou mais estratégia de enfrentamento?
Transtorno não é destino. Borderline, Bipolaridade, TDAH ou Ansiedade são condições de vida, não alvarás de soltura para o mau comportamento. Se o seu diagnóstico serve apenas para você se perdoar sem nunca mudar, ele não é um diagnóstico, é um amuleto de estagnação.
Menos “ah, mas é o meu transtorno” e mais “meu transtorno me inclina a isso, por isso estou treinando o triplo para agir diferente”. No final do dia, as pessoas ao seu redor se relacionam com você, não com o seu CID.
Gustavo Henrique
Psicólogo Clínico
Neurociência e Práticas Baseadas em Evidências