Quando o sofrimento individual é tratado como falha pessoal
Existe uma ideia que circula com força hoje:
se você está mal, é porque não está se cuidando direito.
Não meditou.
Não organizou a rotina.
Não fez terapia como deveria.
Não foi resiliente o suficiente.
Essa ideia parece moderna, mas é profundamente violenta.
Porque ela ignora uma pergunta básica:
em que condições essa pessoa está vivendo?
Cuidar da saúde mental exige recursos.
Tempo, dinheiro, previsibilidade, descanso, segurança.
E isso não está igualmente disponível para todo mundo.
Quando alguém trabalha demais, ganha de menos, dorme mal, vive com medo de faltar o básico — não estamos falando de “falta de autocuidado”. Estamos falando de sobrevivência.
Como não estar ansioso quando a vida é instável?
Como não estar deprimido quando o futuro é incerto?
Como não estar exausto quando tudo exige desempenho?
Nem todo sofrimento é interno.
Nem toda dor é uma distorção cognitiva.
Nem toda exaustão é um transtorno.
Às vezes, é só o corpo e a mente reagindo a um contexto que esgota.
O problema é que o capitalismo é muito eficiente em fazer o seguinte movimento:
primeiro ele te espreme,
depois te culpa por não funcionar bem espremido.
Rouba tempo.
Rouba descanso.
Rouba segurança.
E, no final, diz que o problema é a sua “gestão emocional”.
Quando a psicologia ignora isso, ela deixa de cuidar.
Ela vira mais uma cobrança:
melhore, dê conta, se adapte.
Isso não é neutralidade científica.
É conforto ideológico.
Dizer que “a culpa não é sua” não é negar responsabilidade pessoal.
É recusar a mentira de que tudo depende apenas do indivíduo.
Você não está quebrado.
Você pode estar cansado.
Cansado demais para se cuidar em um sistema que não cuida.
E reconhecer isso não é desistir da saúde mental.
É o primeiro passo para pensá-la com mais honestidade, dignidade e ética.