Uma pequena história sobre motos, teimosia e a curiosa sensação de que às vezes estamos tentando consertar mais do que apenas uma máquina.

Hoje eu consertei o motor de arranque da minha motinha.

Não foi um grande feito mecânico. Não teve trilha sonora épica, nem uma multidão aplaudindo quando a moto finalmente ligou. Na verdade, teve um momento em que eu achei que ia piorar tudo e acabar empurrando a moto pelo resto da vida.

Moto parada tem uma coisa curiosa: ela parece olhar para você como quem diz “e agora, campeão?”. E ali estava eu, olhando para o motor de arranque como se fosse um quebra-cabeça que alguém esqueceu de me ensinar a montar.

Mas depois de alguns parafusos, duas ferramentas erradas, um tutorial mental totalmente improvisado e uma pequena conversa comigo mesmo do tipo “calma, você é um adulto funcional”, a coisa começou a fazer sentido.

Não foi exatamente habilidade mecânica. Foi mais uma mistura de teimosia com curiosidade. Aquela vontade meio infantil de desmontar algo só para entender como funciona — e torcer para conseguir montar de novo depois.

Em algum momento no meio daquilo tudo, percebi que consertar uma moto exige uma coisa que a gente anda meio sem tempo de praticar: paciência.

Paciência para olhar de perto.
Paciência para testar hipóteses.
Paciência para errar sem transformar aquilo num drama existencial.

Quando finalmente apertei o botão e o motor respondeu, senti uma pequena vitória completamente desproporcional ao tamanho do problema.

A moto ligou. Só isso.

Mas por alguns segundos eu fiquei ali, parado, ouvindo o motor funcionar como se tivesse resolvido algo muito maior do que um simples motor de arranque.

E aí eu lembrei de Zen and the Art of Motorcycle Maintenance — aquele livro que basicamente diz que cuidar de uma máquina é também cuidar da própria cabeça.

Talvez seja isso mesmo.

Porque quando a gente mexe em algo concreto — um parafuso, uma peça, um mecanismo simples — o mundo parece um pouco mais compreensível.

Diferente de quase todo o resto da vida.

Porque às vezes a gente não está consertando a moto.

Está só tentando provar para si mesmo que ainda consegue resolver alguma coisa no mundo.

Mesmo que seja um motor de arranque teimoso numa terça-feira qualquer.

Este artigo foi escrito por:

Picture of Gustavo Henrique

Gustavo Henrique

Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

Ler todos os artigos
Picture of Gustavo Henrique

Gustavo Henrique

Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

Ler todos os artigos

Gustavo Henrique | Psicólogo Clínico CRP 08/32842

Av. Gov. Parigot de Souza, 480 – Zona 01, Maringá – PR
CEP: 87013-300

Proibida a Reprodução Total ou Parcial deste Site.
© 2024 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.