Ou: como o universo aparentemente gira em torno de você (spoiler: não gira)

Aviso importante antes de continuar:
distorções cognitivas são formas automáticas e enviesadas de interpretar a realidade. Não são mentiras conscientes, nem “fraqueza de caráter”. São atalhos do cérebro que tentam explicar o mundo rápido demais, acabam exagerando, simplificando ou puxando a conclusão para o pior lado possível.

Agora sim.

Você entra numa sala.
Alguém cruza os braços.

Pronto.
Seu cérebro já concluiu:
“Eu fiz algo errado.”

Bem-vindo à distorção cognitiva da personalização, esse talento especial que faz a gente se sentir o protagonista de um filme… só que dirigido por um diretor muito pessimista.

Na personalização, tudo tem a ver com você.
O colega está quieto?
Você ofendeu.

O chefe mandou um “ok” seco no WhatsApp?
Você está a um passo da demissão.

O amigo não respondeu a mensagem?
Ele está magoado, decepcionado e provavelmente reavaliando a amizade inteira por causa daquela piada de 2017.

A personalização funciona mais ou menos assim:
se algo acontece perto de você, então a causa só pode ser você.
Choveu no dia do seu aniversário? Claramente um recado do destino.
A reunião foi um desastre? Se você tivesse falado diferente, tudo teria sido perfeito.
O clima ficou estranho no jantar de família? Parabéns, você destruiu o Natal.

O detalhe curioso é que, ao mesmo tempo em que a personalização faz você se sentir extremamente importante…
ela também faz você se sentir culpado por absolutamente tudo.

É um combo completo:
– Ego inflado
– Culpa crônica
– Ansiedade de brinde

E claro, nenhuma evidência concreta.

Porque, veja bem, na personalização o cérebro não pergunta, não investiga, não confere.
Ele afirma.
Com convicção.
Sem provas.
E ainda com trilha sonora dramática.

Mas a realidade costuma ser bem menos cinematográfica.
As pessoas estão cansadas.
Preocupadas.
Distraídas.
Vivendo suas próprias novelas internas — nas quais você aparece, quando muito, como figurante.

Talvez o silêncio não seja sobre você.
Talvez o mau humor não tenha seu nome.
Talvez o mundo não esteja reagindo às suas falas, gestos e pensamentos com tanta atenção assim.

E, por mais estranho que pareça…
isso é um alívio.

Porque se nem tudo é sobre você, então nem tudo é culpa sua.
E isso já tira um peso enorme das costas.

Da próxima vez que seu cérebro disser
“isso aconteceu por minha causa”,
talvez valha responder com carinho e um pouco de humor:

“Calma, protagonista. Hoje o universo está ocupado demais para te perseguir.” 😌

Identificar a personalização não tira sua responsabilidade, só devolve ela ao tamanho real.

Este artigo foi escrito por:

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Gustavo Henrique

Prazer, sou Gustavo Henrique, psicólogo clínico com mais de 4 anos de experiência. Minha jornada na faculdade começou com um interesse crescente por uma psicologia mais científica. Fiz minha primeira pós-graduação em Análise Comportamental Clínica pelo Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento (IBAC) e, em seguida, concluí uma pós em Terapia Cognitiva Comportamental pela PUCRS. Trabalhei como psicólogo hospitalar e, posteriormente, em uma comunidade terapêutica. Além disso, atuei como supervisor em terapia ABA com crianças autistas. Atualmente, concentro meus estudos e práticas nas áreas de neurociência e psicologia baseada em evidências, e sou membro da Associação Brasileira de Psicologia Baseada em Evidência.

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Gustavo Henrique | Psicólogo Clínico CRP 08/32842

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